Obrador impugna resultados

Chapelada <em>foxista</em> no México

Pedro Campos
A classe dominante mexicana, receando perder privilégios, voltou à sua prática política favorita: a fraude eleitoral. E nisto o México tem tradição.

«A corrida eleitoral pode não ter chegado ainda ao fim»

Em 1988, quando os primeiros boletins de voto davam a vitória ao candidato Cuauhtémoc Cárdenas, da Frente Democrática Nacional (equivalente do actual PRD), Manuel Bartlett Díaz, Secretário do Governo, declarou que o sistema informático tinha entrado em colapso. Acabaram-se os boletins parciais e à meia-noite o candidato do PRI, Salinas de Gortari foi declarado vencedor. A «chapelada» foi basta mas eficaz e o povo mexicano, porque não denunciou com suficiente firmeza a fraude, pagou um preço elevadíssimo.
Uma vez no poder, Salinas de Gortari fez o que lhe tinha sido encomendado pelos seus patrões: processo selvagem de privatizações, cortes dramáticos na segurança social, redução do gasto social e tesourada nos ordenados dos mais pobres. Zedillo, o seu sucessor imediato, seguiu-lhes os passos e Fox, ex-chefe da Coca Cola, acelerou essa política antipopular. Actualmente, o México não é só um país de crescente desigualdade social. O fracasso foxista traduz-se igualmente no facto de que, no ranking mundial da competitividade, o país ter baixado 24 lugares.
O México de hoje sabe que a imposição fraudulenta do candidato do foxismo significa mais do mesmo e não parece estar disposto a aceitar nova «chapelada».
Se o actual candidato do PRD, Andrés Manuel López Obrador (AMLO) avançar com
firmeza com a impugnação dos resultados desta eleição, talvez não seja possível repetir a fraude de 1988.

Indignação popular

Para já, temos que, a poucos dias de revelados os resultados que dão Calderón como vencedor por um 0,58%, AMLO reuniu mais de meio milhão de simpatizantes no centro de Cidade do México para repudiar a fraude. Durante a mesma, enquanto a gigantesca maré amarela gritava contra a «chapelada» e exigia uma posição firme contra o roubo eleitoral, o candidato progressista acusou Fox de atraiçoar a democracia e as autoridades eleitorais de actuarem como pontas de lança do partido no governo e de quererem impor na Presidência da República «um empregado incondicional, uma marioneta que garanta a perpetuação da corrupção, o clientelismo político e a impunidade»». A indignação dos apoiantes de AMLO chegou ao rubro quando foi transmitida a gravação de uma conversa telefónica, entre uma líder sindical dos professores, altos quadro do PRI (partido de Salinas de Gortari) e membros do governo, onde fica claro que o PRI está
disposto a vender-se à gente de Fox para arredar AMLO da presidência.
Depois de um processo caricato onde se perderam e reapareceram (parcialmente) milhões de votos e onde as máquinas de cômputo eleitoral parecem ter sido «envenenadas» à nascença a favor do candidato, as autoridades eleitorais já «acharam» um vencedor. Contudo, a corrida eleitoral pode não ter chegado ainda ao fim. AMLO convocou novas marchas contra a «chapelada», anunciou a impugnação legal dos resultados e adverte que lutará até ao final para se limpe «um processo fraudulento na sua origem».

Fraude e violência ameaçam o processo

Vários artistas e intelectuais mexicanos estiveram entre as centenas de milhares dos manifestantes e um dos que mais alto e mais claro falou foi o escritor Fernando del Paso.
Começou por advertir as autoridades eleitorais de que existem no México milhões de mãos dispostas a uma recontagem dos votos um por um, para depois acusar o candidato foxista de ter enlodado e difamado AMLO. «Como escritor – afirmou – exerço o meu direito de denunciar os que com aleivosia e vantagem distorcem e têm destorcido a linguagem para semear a confusão, a discórdia e sobretudo, o medo». «Esta fraude – continuou – faz parte da nossa história, e com ela atraiçoamos a confiança dos eleitores nas nossas instituições mais caras. Defraudou-nos o presidente Fox, ao participar na campanha contra AMLO e a favor de Felipe Calderón. Defraudaram-nos as mais altas autoridades eleitorais, porque não souberam diferenciar entre a liberdade de expressão e a liberdade de ultrajar e vexar um adversário político…».
Del Paso acusou igualmente o candidato foxista de criar um clima de violência. «A palavra violência acaba de reaparecer no vocabulário político mexicano a só quatro dias de distância da votação do 2 de Julho. (…) Felipe Calderón falou do triunfo de pacificadores e vencedores. Em que mundo vive este senhor Calderón, que não entende que com estas palavras classifica de violentos os 15 milhões de mexicanos que votámos por AMLO no exercício pleno da nossa liberdade? Em que mundo vive? Em que México, que chama de pacificadores aos que acenderam o fogo de uma campanha política, de um agressividade sem precedentes no nosso país?»


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